Necropolítica e a Naturalização da Violência no Cenário Geopolítico Atual
O mundo vive um intenso momento de conflitos armados, com guerras, extremas violências dos ternos com o aumento da corrupção sobre princípios éticos e econômicos, entre outros. Isso tudo induz uma perigosa trama a quebra da confiança nas instituições sociais e econômicas, colocando em pleno riscos os processos democráticos, com a presente propagação de regimes autoritários e presidentes invadindo nações sem autorização de seu próprios congressos, o que impulsiona traços manifestos do fascismo, onde o ódio e ameaças físicas e culturais se tornam retóricas de "autonomias" pessoais extremistas, tendo como defesa o célebre discurso de liberdade de expressão em detrimento dos diálogos institucionais antagônicos, porém, necessários para manutenção dos alicerces das democracias do mundo atual.
Observamos ações violentas de perseguições políticas aos refugiados, aumento da fome de forma planejada, usada inclusive como arma de guerra, o velho crime organizado, que envolve "autoridades" definidas na prática da organização, dentre outras práticas correlatas, produzindo um jogo de mortes nas periferias com as chamadas facções ou carteis de drogas atuando de formas bem planejadas e estruturadas, visto também dentro de mercados financeiros, que pressionam taxas de juros elevadas e assim, conseguem lavar o montante de seu dinheiro originado de suas atividades ilícitas e, se for preciso, podem atuar como milicias armadas, bem como dentro dos partidos políticos, corrompendo seus princípios ideológicos e os interesses das políticas sociais que preconizam em seus estatutos.
O conjunto dessas ações resultam em sofrimentos humanos profundos, impondo medos, fobias e traumas mentais em todas as formas de vidas humanas, tornando as relações sociais adoecidas, frutos dos argumentos utilizados em redes sociais que desprezam plenamente a verdade dos fatos, isso acontece de forma orquestrada em inúmeras sociedades e em vários países, resultando em desequilíbrios econômicos e socias provendo da plena insegurança, onde até os bancos centrais dos países, que devem ser instituições reguladoras de suas economias, passam a ser alvos dessas formas de manipulações atuais, com seus dirigentes sendo ameaçados de mortes e perda de seus cargos. Essas situações se expandem em várias nações trazendo riscos dentro das relações comerciais internas e externas. Tal cenário decorre exclusivamente dos interesses econômicos e políticos de uma pequena casta bilionária mundial que não aceita o desenvolvimento e autonomia dos países mais pobres, sendo seus territórios cobiçados por esses grandes grupos econômicos que elegem seus representantes democraticamente e quando chegam ao poder maior colocam em jogo seus interesses ambiciosos, em qualquer lugar do mundo, gerando um risco ao processo civilizatório existente na humanidade.

Em Vigiar e Punir de Foucault, ele termina com essas seguintes palavras:
"Nessa humanidade central e centralizada, efeito e instrumento de relações de poder complexas, corpos e forças são submetidos através de diversas e variadas instalações de 'encarceramento' e são objetivados para discursos que são eles próprios elementos da estratégia. Nessa humanidade não podemos deixar de ouvir o estrondo de trovão da batalha." (Referência: FOUCALT. Überwachen und Strafen. Op. Cit., p. 397.)
Essa prática de trovão no dia a dia nos posiciona reféns, construindo um quadro de saúde mental de amplo sofrimento, onde os lutos afetivos são condicionantes constantes diante do pouco espaço de sobrevivência de lucidez, o que agride de forma sistemática nossa capacidade subjetiva, produzindo relações humanas tensas, gerando inseguranças emocionais. Isso afeta de forma drástica nossa cidadania no sentido da vida pessoal, familiar, social e econômica, o que possibilita, inclusive, abandonos territoriais em busca da simples sobrevivência corporal. Esse descalabro acontece diariamente, presenciamos nas favelas violentadas pelo estado e milícias agressoras, bem como, os múltiplos campos de refugiados existentes no mundo.
O curioso é que essas agressões passam a ser vistas como naturais. E, por incrível que pareça, algumas pessoas e líderes mundiais utilizam como argumentos de supostas liberdades em suas expressões verbais dissimulando seus interesses, procurando esconder claramente os seus jogos imperialistas comerciais. Porém, os demonstrativos financeiros de suas indústrias bélicas e tecnológicas não se apresentam com aterrorizantes resultados, pelo contrário, suas ações comercializadas apontam de forma precisa investidores felizes com essa abundância lucrativa.
Essa violência se multiplica em vários territórios apresentando uma postura de "passividade e autodefesa", criando uma ideologia em que seus interesses não sejam percebidos como atos opressores, e sim, de se fazer o bem aos supostos segmentos sociais e econômicos que não podem se defender de supostos "grupos terroristas" ou de governos totalitários. Logo, intenções com ataques armados ocorrem porque o país invadido, ou favela, supostamente seus líderes não aceitaram negociar. Portanto, quando necessário, por questões de manifestações contrárias dos líderes do território que eles pretendem ocupar, o "tom" das ameaças se impõe de forma mais agressiva, objetivando a plena submissão territorial e da população que será violentada por forças das ações militares previamente planejadas, o que neutraliza ações "diplomáticas" que poderiam e podem ser utilizadas nos diálogos civilizatórios, evitando dano maior causado às populações e aos territórios invadidos. Essa radicalização dos argumentos ameaça a morte da população civil e o estrangulamento econômico do território invadido, utilizando de métodos cada vez mais perversos, como assassinato de crianças em escolas ou próximos de seus pais, torturas aos aprisionados e outras aberrações, reportando exuberante estratégia no seu jogo necropolítico, onde realmente o invasor decide quem no território permanecerá vivo.
"As guerras da época da globalização, assim, visam forçar o inimigo à submissão, independentemente de consequências imediatas, efeitos secundários e 'danos colaterais' das ações militares." - MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018, p. 51
Hoje as sociedades não conseguem propor um amplo debate sobre essas inúmeras formas extremistas de poder, visto que o cenário traz na prática uma guerra ideológica e bélica muito bem patrocinada ao se vangloriarem das mortes de líderes religiosos, líderes políticos adversários, etnias, facções, e para agravar ainda mais, utilizam a fome humana como arma de guerra, ausência de água potável para consumo humano, chegando mesmo a executar cidadãos comuns que não apresentam nenhuma condição de defesa de suas vidas. O mais sádico é que a imprensa nacional e mundial, muito bem patrocinada, constrói narrativas histórias de supremacias dos estados agressores, no qual podem ser mais tarde compreendidas como estórias de como hoje estão sendo apresentadas, pois os patrocinadores jornalísticos possuem um vasto interesse econômico na pauta dos noticiários dos chamados horários "nobres".
Na atualidade, o essencial é agredir, intimidar e humilhar, impedindo o manifesto da singularidade humana. Observe que todos os jornais já iniciam suas pautas falando dessas aberrações sem contabilizar o mesmo tempo para pautas cientificas, culturais e poéticas de nossas vidas que ainda pulsam em todos nós, fazendo resistir para existir o mais belo traço da humanidade viva em nossa natureza humana e universal, o conhecimento.
Apesar de tudo isso, ainda estamos vivendo com empatia e solidariedade, podemos pensar como encontrar caminhos para que essas dores não sejam espetáculos desumanizantes, mas que possam ser compreendidos por todos nós como um estado crítico, nos permitindo ações de resistências para que sejamos instrumentos de consciências políticas para essa e outras gerações. Dessa forma, devemos impedir o crescimento escalado de sociopsicopatas nas relações de poderes, sejam políticos ou líderes comunitários, já que essas pessoas são ausentes de sensibilidades em suas relações com os outros, possuem sede de poder insaciável, desrespeitos com as normas sociais, sendo que esses traços colocam em riscos a sobrevivência da humanidade, podendo sim, exterminar nossos horizontes multiculturais, visto cada sociedade possui seus manifestos próprios, alicerces de suas ancestralidades.
Somos semelhantes biologicamente, porém, o mais bonito ainda, é percebermos que nossa historicidade é composta de naturezas estimulativas, logo, modificadas pelo meio ambiente como um todo, o que nos possibilita percebermos diferenças comportamentais que se manifestam, personalizando nossas atitudes e nossos valores sociais. Entretanto, atualmente nos sentimos ameaçados em função das rupturas brutas emocionais e suas fortes imagens que dificilmente iremos esquecer.
Isso me remete ao pensamento existencialista sartreano de que “o inferno são os outros”. (Referência: SARTRE, Jean-Paul. Entre quatro paredes (Huis Clos). Paris: Gallimard, 1944.)
Hoje, falar e escrever sobre o avanço da violência em nosso cotidiano ocupa grande parte de nossos manifestos expandindo nossas reações neuropsicológicas, o que interfere na forma como pensamos, agimos, sentimos e nos comportamos, ampliando tensões e receios pessoais, visto que, o tempo todo assistimos a inúmeras formas de agressões praticadas nas sociedades, divulgadas nas redes sociais, o que agrava nosso quadro de saúde mental.
Esse panorama drástico pode gerar "gatilhos" no aumento dos assassinatos dentro e fora das relações familiares, no crescente feminicídio, "balas perdidas" e agressões verbais corriqueiras, inclusive acontecendo na internet. Isso tudo, tem uma forte influência em nossas atitudes, podendo reduzir nosso sono, nossa alimentação e nosso bem-estar social.
Essa prática econômica bélica atual em larga escala passa a ser o eixo que desenvolve o jogo geopolítico entre nações e estados, diante do interesse singular, o que produz um jogo perigoso, sendo o arcabouço do processo necropolítico sem precedente na história, visto que a própria ONU, que foi criada para atuar nas mediações de conflitos entre os países, não consegue exercer seu papel em função das castas privilegiadas com direito a veto.
"Ser soberano é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação do poder." - MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018, p. 5.
Assim, a necropolítica se torna presente, sendo exercida a partir de ordens humanas que objetivam avassalar vidas inocentes, sepultando sentimentos, afetos, sonhos, subjetividades pessoais e culturais dos territórios invadidos, necropsiando a história perversa atual.
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Sugestões de leitura
Livro de Achille Mbembe: Necropolítica, citado no texto acima.


