A Geopolítica do Vazio: Do Narcisismo de Lowen ao Globalitarismo de Milton Santos
Vivemos um esplendor narcisista e de psicopatia; O que essas pessoas têm em comum são traços de suas personalidades que aparecem como sendo compatíveis para o exercício do pleno poder, sem se intimidarem com as consequências de seus desejos e de seus interesses, seja de ordem pessoal ou dentro de suas atividades profissionais como chefes de estado em seus países.
Elas não se importam em praticar, nesse momento histórico, verdadeiras tempestades de agressões aos que se colocam contrários aos seus interesses, sejam outros chefes de estado ou mesmo povos indefesos do ponto de vista bélico ou cultural. Para isso, utilizam-se de justificativas que rotulam seus oponentes como sendo ameaças substanciais aos seus países.
Objetivando legitimar suas ações, eles criam seus inimigos e impõem suas vontades através de oratórias impositivas, onde seu "opositor", seja quem for, é definido a partir de uma linguagem construída de forma plenamente acusatória, utilizando adjetivos como terroristas, assassinos e invasores, ou até mesmo de possuírem armas capazes de destruírem o mundo todo. Para que suas acusações possam triunfar, utilizam-se de suas mídias e, assim, promovem suas certezas, retirando dúvidas de que outras nações devem declarar apoio, ou, caso contrário, essas podem ser penalizadas com sanções econômicas de toda ordem, inclusive sofrerem uma escalada de fome como instrumento "legítimo" de coerção ao não aceitarem o que esses homens narcisos determinam.
Alexander Lowen, médico de formação, psicanalista por um bom período profissional, estudou com Wilhelm Reich, criador da análise bioenergética, onde sustenta que o processo psicoterapêutico deve atuar constantemente observando e trabalhando a relação mente-corporal.
Aqui vou explorar sua obra Narcisismo: negação do verdadeiro self, publicada no Brasil em 1983.
Para Lowen, pessoas narcisas estão mais preocupadas com suas aparências do que com o que realmente sentem; negam quaisquer sentimentos que contrariem a imagem que querem apresentar. Logo, possuem práticas de vidas sem precisar expor reais sentimentos e, para isso, procuram ser sedutoras, quando necessário, e ardilosas ao serem contrariadas, visto que o mais importante é que possam ter garantida a plena convicção de que possuem o controle total da situação, seja ela qual for. Logo, são pessoas fortemente egoístas, sendo concentradas em seus próprios interesses, todavia carentes dos verdadeiros valores do self, como autoexpressão, serenidade, dignidade e integridade. Aos narcisistas faltam sentimentos de self derivados de sensações corporais; articulam tudo de forma plenamente racional, não se importando com a dor do outro. Sem um sólido sentimento de self, vivem a vida como algo permanentemente vazio e destituído de significado, gerando um constante estado de desolação que, por ser permanente, o coloca diante de sua fragilidade pessoal; todavia, essa sua atuação perversa ajuda em seu equilíbrio de poder e vitalidade puramente pessoal, visto sempre precisar conquistar.
E aqui mais um interessante traço do ser narciso. Na esfera cultural, o narcisista pode ser considerado como uma pessoa de profundas perdas quanto aos valores humanos, visto não se importar com questões ambientais e de qualidade de vida, principalmente quando seus interesses estão em jogo na mesa geopolítica do poder. Para o narciso, outros seres humanos são apenas semelhantes, ele não tende a buscar analisar com empatia; logo, não são mais importantes do que ele e seus propósitos. Por isso, defendem com facilidade suas teses de que as sociedades devem aceitar sacrificar o meio ambiente em prol da rentabilidade cada vez mais lucrativa e, quanto ao exercício de poder, se necessário for, tornam-se insensíveis face às necessidades humanas, como a fome e políticas de habitação para todos. O que importa é que a proliferação das coisas materiais possa ser vista como conquistas econômicas e, assim, reconhecidas como progressos à vida humana.
Em suas análises comportamentais, os homens são opostos às mulheres; podem mandar e pouco se importam com o que elas sentem diante de seus atos. Também acreditam ser natural o trabalhador ser inferior ao patrão diante das relações humanas entre ambos, bem como o individual ter baixo valor humano diante do valor da comunidade que o narciso precisa "conquistar". Logo, matar e atacar pessoas pode ser uma boa estratégia para conquistar uma comunidade, visto que o medo, em uma escala maior, passa a ser uma arma civil e militar de forte impacto diante dos sobreviventes e testemunhas oculares ou midiáticas do que naquele território tenha acontecido. Aqui é preciso pensar no risco da fronteira de contato entre os traços de personalidade narcisista e o traço do psicopata. O psicopata se considera superior às outras pessoas; como os narcisistas, negam seus sentimentos em suas ações para com os outros, podendo assassinar, mentir, fraudar, roubar sem qualquer indício de culpa ou arrependimento sobre seus atos. Acreditam ser inteligentes e sempre inocentes e, quando punidos, podem expressar profundas depressões, ideias de homicídios de seus oponentes, bem como desejos eternos de vinganças e de plena injustiça para com o que fizeram...
Diante desses traços de personalidades, eles podem optar pela privação alimentar de outras pessoas sem nenhum arrependimento, ou seja, usar a fome como arma para agressão é plenamente justificável para essas pessoas, bem como a destruição plena dos bairros ou cidades atacados de forma militar com ações desproporcionais, impedindo a capacidade de resistência de seus supostos oponentes, visto que nesse sentido eles estão atacando o instinto humano de sobrevivência. Essa atitude amplia o desespero humano, fazendo com que elas fujam de seus territórios em prol de conseguirem continuar vivendo, levando consigo seus poucos pertences, sepultando seus familiares mentalmente e seus sentimentos culturais existentes em suas vidas, além de uma condição humana de flagelo absoluto.
Essas ações visam expor essas pessoas ao profundo quadro de miséria, o que facilita a mercantilização de suas vidas diante de um profundo grau de mais-valia, tornando-os mão de obra barata, o que levou nosso majestoso geógrafo, Milton Santos, a afirmar em seu livro Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal, de que a globalização nada mais é do que um "globalitarismo", ou seja, os países poderosos impõem sua "ordem" de humilhações a partir da única e sua excludente visão geopolítica aos demais países, não se importando com os valores humanos alicerçados em outras nações...
Assim, a morte dos mais pobres em seus territórios é reflexo da vida narcisista e psicopata existente no exercício de pleno poder que se legitima pela força opressiva diante dos mais pobres, mantendo a fome como instrumento de exclusão e o subemprego como condição de sobrevivência, deixando clara a lógica de que quem não tem, fica sem nada para ter, e quem tem, passa a acumular ainda mais sua forma de poder mercantil, esse disfarçado de política de estado, quando na verdade são políticas de pequenos grupos econômicos mantendo seus altíssimos privilégios no mundo mercenário atual.
Precisamos do convívio em paz, visto que a vida humana é o único patrimônio que efetivamente possuímos, e que essas ações narcisas ou psicopatas são difíceis em nossa convivência diária; todavia, estão presentes em nossas relações pessoais, familiares, nas sociedades diversas, ganhando espaços significativos no jogo geopolítico atual. Por isso, estamos constantemente assistindo à segregação nas metrópoles dos mais pobres e estendendo essa segregação ao campo das diversidades culturais e da educação, impedindo que essas sejam uma política pública de eqidade social e que possa, efetivamente, contribuir para uma robusta melhora em nosso quadro de saúde mental.

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