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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

MEMÓRIAS AFETIVAS DE NOSSOS PAIS EM TEMPO DE CÍRIO.

A saudade é uma coisa engraçada. Vai chegando de mansinho e a gente nem percebe. De repente, estava organizando a casa para o Círio do mesmo jeito que minha mãe Maria de Nazaré organizava... Partindo da limpeza geral, até o oratório preparado com muito capricho. Absorvemos tantas coisas na infância e na idade madura, repetimos igualzinho. Bem que a música da Elis Regina diz: Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais...

A camisa do Círio, a famosa fitinha com três promessas, o escapulário ou cordão da Santinha, enfim tudo remete a nossa reverência a Nossa Senhora de Nazaré.

Ah! E a mesa farta do Círio é um capítulo a parte. Mamãe gostava de receber, com diversos pratos típicos, os meus tios que chegavam de viagem: pato no tucupi, maniçoba, pirarucu, bolinhos de bacalhau, vatapá...

E as sobremesas eram frutas típicas de nossa região: cremes e bolos de cupuaçu, bacuri, graviola, etc.

A casa era uma festa só! Com muitas alegrias e abraços, reencontrávamos os tios e primos de terras distantes.

Depois dos cumprimentos, saíamos de fininho para deixar os adultos à vontade para conversar, conforme a educação da época. Só retornávamos para a sala se fôssemos chamados ou após as visitas terem almoçado.

Era um suplício, aguardar com ansiedade o almoço do Círio...

E a felicidade de ganhar uma lembrança dos tios e primos recém-chegados!

À tardinha, o famoso cafezinho para finalizar os assuntos do dia.

Tempo, tempo, tempo...

Caetano Veloso

E para encerrar minhas memórias dos Círios de minha infância, quero falar a todas minhas amigas e amigos que têm mãe e pai vivos, para aproveitarem ao máximo o tempo com eles. Compartilhar coisas legais, inventar, fazer um bolo de fubá, cozinhar milho, pupunhas, fazer broas, doce de cupuaçu, comprar cascalhos ou pipocas de arroz, ouvir músicas antigas de cantores que eles apreciam, escrever pequenas histórias de família, ler livros religiosos juntos a eles, etc.

Cada filho tem uma história com seus pais e sabe o que ele mais gosta.

Conversar sobre as dificuldades e desafios da época, fatos históricos que vivenciaram, como o governador Magalhães Barata, o bondinho, a lamparina, a vida no interior, criação de animais, os meios de transporte, de comunicação...



O idoso é um livro vivo de lembranças do passado!

Ainda lembro-me dos famosos ditados e provérbios que eles utilizavam para exemplificar:

“Quem com ferro fere, com ferro será ferido”.

“Em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

Quando alguém estava gripado...

            “Livra-te dos males que eu te ajudarei”.

 

Quando a gente estava com preguiça...

“Primeiro a obrigação, depois a diversão”.

Quando tinha um boato...

          “Onde há fumaça, há fogo”.

Nós como filhos, nos espelhamos em nossos pais. Muitas vezes, nas crises de nossas vidas, nos perguntamos se nossa mãe ou nosso pai aprovaria determinada atitude que tomamos.

Eles são nossas referências de vida e até, de forma inconsciente, buscamos aprovação, agradando-os, de todas as formas.



Alegrias e tristezas compartilhadas ao longo da vida nos mostram o quanto eles também tiveram suas dificuldades, suas opções de vida e foram corajosos diante de tantos obstáculos. Cada geração tem seus desafios! E, ao fazer a revisão de suas vidas, percebem em que erraram e acertaram, pois são humanos e como sabemos o livro da vida não vem com manual.

Afinal:

“Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

Almir Sater / Renato Teixeira

Por fim, este canal da memória afetiva, me faz pensar que devemos relembrar juntos, compartilhar juntos, enquanto o tempo, senhor da vida, nos permite vivenciar a lembrança que não foi e que não irá, pois cada passo que ainda me cabe, darei com as lembranças de minha infância, para que a menina que existe em mim tenha como se preservar, me permitindo aflorar as emoções vivas no agora de meu eterno ser.

Por: Rita de Cássia Gaspar


sexta-feira, 31 de julho de 2020

Natureza do Conflito, Relações Humanas e Saúde Mental.

A natureza do conflito se personifica nas relações humanas, em função de que ao longo de nossas vidas buscamos satisfazer necessidades básicas e isso nem sempre se consegue apenas por força de nossa vontade ou voluntariedade, na medida em que os propósitos da existência humana podem encontrar outras construções de relacionamentos humanos que, por terem interesses divergentes poderão acarretar situações de maior embaraço produzindo conflito e dependendo das circunstâncias brotar alterações no quadro mental.

Em nossas relações afetivas, profissionais e comerciais, com uma ou outras pessoas que se encontram no mesmo propósito de intenções, essas relações podem ser tranquilas, no entanto, quando tem vieses diferentes podem gerar interesses divergentes e isso por si só deverá ampliar o campo de tensão entre as partes envolvidas.

Ao percebermos que em todo relacionamento humano existe um contrato psicológico seja ele por escrito ou de forma implícita, temos a certeza de que esse contato vai sinalizar e exigir das pessoas envolvidas algumas expressivas relações de reciprocidades, visto que todo ser humano espera algo do outro a partir do encontro de interesses comuns, e quando isso não ocorre entramos na temática da divergência humana.

Na existência do contrato psicológico, os papéis humanos já estão preestabelecidos a partir de um quadro característico de responsabilidade, expectativa de eficiência e de respeito ético. Porém quando isso não se concretiza, o campo dinâmico da relação individual ou grupal deverá sofrer intervenções de riscos eminentes para um conflito duradouro e de difícil resolução, visto que poderá acarretar muito desgaste de energia emocional tanto individual quanto coletiva, dependendo dos reais interesses envolvidos nas questões.


Quanto mais tempo um conflito existir em uma relação pessoal, grupal, social ou até mesmo entre nações, maior será a probabilidade de ações aversivas entre as concepções colocando em risco as vidas...

Trazendo para essa temática uma construção mais proximal de nossa realidade, todas as famílias possuem seus conflitos em função das concepções internas e externas que estão sendo modificadas de forma muito intensa e a curto prazo, o que mobiliza os alicerces afetivos das pessoas envolvidas na questão, alterando de forma significativa a projeção emocional de seus membros.

Um exemplo para o dia de hoje como gerador de conflito familiar está nossa alta taxa de desemprego, fato que pressiona o campo psicológico da convivência sobre os que estão conseguindo trabalhar, despertando tensão na pessoa que está na atividade laboral em função da possibilidade de perder esse rendimento econômico, se isso vier ocorrer ela terá dificuldade em manter seu alicerce familiar, o que facilitará o estresse no campo interpessoal, bem como expressões de rupturas comportamentais abrindo espaço para o surgimento de patologias mentais.

Afirmo aqui que as mudanças podem beneficiar uma natureza conflitiva, mas como viver sem mudar e sem conflitar, isso é possível?

A resposta a esta pergunta nos coloca diante de um dilema que é a certeza de que a mudança chegará, cabendo a cada pessoa procurar se adaptar e assim assumir seu novo papel social e profissional. Logo, nos resta viver e procurar acompanhar a mudança de acordo com a perspectiva na esfera pessoal e profissional, caso contrário, sairemos do jogo da empregabilidade o que pode intensificar a natureza conflitiva.

Entender que tudo pode mudar a todo momento, produz no Homem um ser ansioso, visto que o passado ele conhece, o presente ele sente o que pode fazer, mas quanto ao seu futuro, esse desperta um sentimento de incerteza maior, e isso poderá gerar episódio de dificuldade adaptativa despertando conflito atrelado a sua própria condição de existir.

Todo conflito tem uma natureza de comunicação específica, ele sinaliza que algo precisa ser modificado na relação vivida, porém quando isso acontece, estamos diante de um campo dinâmico, território do poder, esse território pode estar do ponto de vista físico na residência, trabalho, transportes, escola, tantos outros lugares de convivência humana.

Quando começa esse cabo de guerra, dentro do território do poder, afloram sentimentos expressos em linguagens ou gestos que possibilitam interpretar o risco existente na relação, devendo ser supervisionado por mais pessoas, para assim evitar agressões mais acentuadas tanto no campo físico como verbal.

Parte desses comportamentos expressos no ato do cabo de guerra são voluntários, produzindo mudança no fazer das ações e em sua origem manifesta. Outros comportamentos surgem de situações traumáticas inconscientes ou involuntárias, sendo originário de sentimentos acumulados ao longo da vida, isso pode dificultar ainda mais uma resolução tranquila do conflito, visto que o fator traumático se manifesta com expressões aprendidas e catalogadas como mecanismos de defesa.

Diante dessa circunstância a pessoa em questão não pode conviver com realidade imposta, o que poderá acarretar uma ruptura de caráter, ou mesmo uma crise mental provida do choque no enfrentamento, ou ainda, manifestações de doenças psicossomáticas ao fim desse episódio de conflito, com aparecimentos nos próximos dias ou meses de queixas clínicas em áreas do corpo, podendo surgir estresse, dores no corpo, ou ainda possibilitar o surgimento de doenças como úlcera, gastrite, dispneia, cefaleia, e tantas outras situações clínicas que se manifestam nos conflitos emocionais e que estão dissimuladas ou presentes nas pessoas envolvidas na situação conflitiva.

Aqui surge a necessidade de um mediador no conflito. Essa pessoa deve analisar a situação problema de forma ampla, buscando dialogar com ambas as partes conflitadas, procurando despertar pontos comuns de interesses e seus efeitos na negociação, sinalizando a possibilidade de reduzirem suas crises expressivas de ansiedade e poder, procurando estabelecer um ponto de proximidade entre as partes para que a ruptura não seja tão traumática.

Negociar é ceder algo para poder avançar no sentido da harmonia entre as partes envolvidas, essa é a situação ideal para que o sofrimento mais amplo possa dar lugar ao retorno da saúde mental de todos os envolvidos.

Para que isso ocorra, precisamos ter paciência, empatia, ternura, bem como firmeza na argumentação, pois essas atitudes serão determinantes para a resolução do conflito, devendo estar presentes nas ações do mediador, pois em situação de conflito de qualquer natureza, não se brinca, é melhor resolver o mais rápido possível...

Precisamos de Paz Interior para construirmos a Paz Social, porém também é verdadeiro afirmar que precisamos da Paz Social para construirmos a Paz Interior. Logo, precisamos ser mediadores, responsáveis, fraternos e solidários em nossas relações humanas, visto que todo relacionamento é originário da atitude do Homem em seu território existencial...


sábado, 20 de junho de 2020

Educação Familiar, Formação Humana e Processo Existencial.



“ A vida é bela, mas também pode ser muito cruel e difícil para algumas pessoas. Em algumas situações, por mais extremas e desesperadoras que possam parecer, devemos manter o pulso firme e o equilíbrio mental, pois esta é a melhor maneira de conseguir enxergar a luz no fim do túnel!"
Sigmund Freud

As famílias têm se modificado em sua composição, forma, visto que antigamente eram compostas de Pai, Mãe e filhos. Atualmente essa concepção foi modificada como sinaliza a Sociologia por meio da Antropologia e a Psicologia através da Psicologia Social. Essas ciências estudam questões que revelam como a sociedade está organizada em suas formas de relacionamentos humanos e institucionais.
Hoje existem inúmeras composições familiares, pois observamos famílias de pais separados, onde os filhos passam a ser educados diante da proximidade e dos distanciamentos de um dos pais biológicos e assim passam a conviver com padrastos ou madrastas, ou ainda pais afetivos, que adotam de forma emocional a chegada de novos filhos em suas vidas, mesmo não tendo o registro em seus nomes. Por outro lado, existem homens e mulheres que sozinhos criam seus filhos ou adotam pessoas de seu ambiente familiar ou comunitários, e ainda temos casais homossexuais masculinos ou femininos que educam os filhos biológicos de um dos cônjuges já existentes, ou passam a buscar através da adoção jurídica crianças institucionalizadas, objetivando criar como filhos afetivos, ampliando os laços afetivos vividos pelo casal.
E aqui Jean-Paul Sartre me permite afirmar que: “Um homem não pode ser mais homem do que os outros, porque a liberdade é igualmente infinita em todos”.
Nossas famílias mudaram e todos precisamos acompanhar essa nova construção social, o que por si só suscita uma ampla compreensão de cidadania aonde o respeito a qualquer forma de família acima descrita tem o amparo constitucional e seu reflexo no Código Civil Brasileiro, onde nenhuma forma de preconceito pode ser vivenciada através de expressões escritas ou verbais no sentido pejorativo ou discriminatório, o que poderá acarretar punições estabelecidas no Direito Civil amplamente sedimentado pela jurisprudência brasileira.
Seguindo a questão jurídica, cabe a família à educação de seus filhos, visto que ela é responsável em repassar seus valores culturais, éticos e espirituais, além de assegurar condições de moradia, segurança, alimentação e afetividade, objetivando possibilitar amplas condições para um desenvolvimento humano e social mais saudável possível, compreendendo ainda aspectos físicos, materiais e mentais.
          Sigmund Freud nos ensina: “Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada!
Ressalto que o amor familiar é um sentimento que muito pode ajudar na maturidade ou imaturidade de uma pessoa, pois parte de seu comportamento será dosado a partir do respeito, alegria, tristeza, valorização pessoal, experiência social e inúmeros outros elementos produzidos pelos vínculos afetivos vivenciados, neutralizados ou negados.
           Portanto para compreendermos o comportamento manifesto de uma pessoa, precisamos abandonar os elementos preconceituosos e buscar entender como ocorreu ou ocorre tal manifestação, visto que esse processo de educação familiar irá refletir parte de suas atitudes e para isso precisamos analisar sua história de vida, o que chamamos de anamnese.
Iniciamos o estudo de anamnese através da concepção genética, visto que traços físicos e manifestações emocionais de nossos pais, avós e bisavós, são compostos por informações hereditárias, ou seja, passadas para seus descendentes e que irá compor o chamado código genético, o DNA de cada pessoa.
Observe que em toda família existe alguém que puxou o temperamento do pai, ou da mãe, avós e bisavós tanto materno quanto paterno, sendo que esses traços emocionais são expressivos no dia a dia da convivência pessoal e familiar. Também, mantemos traços físicos, como por exemplo de cabelos, cor da pele, altura proximal, além de desenhar, pintar, consertar coisas, tocar instrumentos musicais, gestos corporais, etc.
Como a família educa, ela influencia a sociedade e na formação da pessoa humana, cabendo orientação quanto ao processo escolar de seus dependentes, pois é atribuição dos pais ou responsáveis legais matricular seus filhos nas escolas mais próximas de sua casa, sendo deles a liberdade de escolha a essa questão. Porém, os filhos devem estudar, isso é uma obrigação prevista na Constituição Federal de 1988, e no Estatuto da Criança de Adolescente – ECA - 1990, bem como na Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB- 1996.
No ambiente escolar, começa um novo ciclo de socialização e ampliação dos nossos comportamentos, experiências que trazemos de casa para a escola e também passamos a assimilar e interagir com outros comportamentos, sendo esses praticados pelos professores, colegas de salas e a disciplina própria escolar.
Essas situações ajudam na construção de um alicerce de vida pessoal, que poderá possibilitar transformações saudáveis e ou dificuldades afetivas a partir da infância e adolescência, podendo ainda acarretar reflexos comportamentais determinantes na vida adulta ou na terceira idade.
Dessa forma a educação de um indivíduo se expressa na sociedade a partir dos reflexos de inúmeras maneiras de aprendizagens vivenciadas, sendo seu meio social responsável por parte de seu comportamento manifesto, porém é necessário observar a ação intrínseca pessoal.
Com isso, é imprescindível dizer que o meio social interfere na construção de uma personalidade, porém não é totalmente responsável pela ação humana, visto que outros fatores subjetivos e objetivos estarão presentes em suas manifestações.
Desse modo, a formação da personalidade de uma pessoa será expressa pela educação recebida em seu meio social e de outros fatores conscientes e inconscientes que também deverão ser analisados para que possamos compreender sua natureza singular. 
A dinâmica da personalidade permite que o Homem possa viver em aprimoramento constante e para isso ele deve ser estimulado, pois não existe limite físico ou intelectual para a aprendizagem, visto que a idade cronológica não é um fator que o impeça de aprender. Se a aprendizagem não estiver ocorrendo naturalmente é possível que existam fatores neurofisiológicos que devem ser investigados por um profissional de saúde, e posteriormente ao diagnóstico, outros profissionais poderão compor esse processo de tratamento.
Sartre nos diz: “O homem deve ser inventado a cada dia.”
A personalidade pode ser entendida como um processo que se constitui e desenvolve ao longo da vida humana, visto que o indivíduo cresce durante toda sua existência, aprendendo e ensinando com seus momentos de vida e sempre se tornando apto as novas experiências em seu meio social como um todo. 
Aqui Freud nos sinaliza que: "Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano".
Se aprender é possível para o ser humano, então a educação em todas as suas formas de vivência não é a única responsável pela sua liberdade ou escravidão intelectual, visto que ele intrinsecamente sempre tem uma escolha, uma possibilidade de mudar, mesmo que tudo esteja difícil, ainda existe algo que ele pode e deve fazer para se realizar.
Diante de suas dores existenciais, o humano ainda é um ser de autorregulação emocional, sendo esse um processo que coloca as emoções para inibir impulsos e construir respostas adequadas evitando o estresse, a ansiedade, pânico, modificando seu estado de saúde mental, propondo novas tomadas de decisões, ampliando assim as condições de resolutividade.

E aqui preciso lembrar o poeta Fernando Pessoa:
“ Navegar é preciso, viver não é Preciso”.

Navegar é preciso, por isso precisamos de um norte, um horizonte, um movimento, porém, viver não é preciso, visto que caminhamos com dúvidas eternas.

Tem sempre algo que não sabemos, que pode ou ainda poderá nos acontecer, porém, uma coisa é certa, vai acontecer...

Saber lidar com esse novo tempo é vitalizador para nossa saúde física, mental e espiritual.

Seja qual for o nosso próximo momento, espero que estejamos preparados! 

                                             Vai acontecer...

sábado, 2 de maio de 2020

Mudanças de Hábitos e Valores, O Poço e o Dia a Dia.



Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.

  Hoje estamos vivendo um momento de muita aprendizagem pessoal e coletiva, por isso precisamos mergulhar em nosso íntimo afetivo e assim avaliarmos melhor nossas ações no dia a dia, seja na construção ou quem sabe na recuperação de nossos laços familiares, bem como em nossas outras formas sociais de conviver, sejam comunitárias ou profissionais.

          O mundo científico produz um amplo debate sobre o combate ao Vírus que reduziu de forma significativa as estimativas de lucro na economia mundial, mudou a rotina do conhecimento científico, das pessoas, interferindo diretamente no eixo do relacionamento humano de forma tão profunda que estamos sem saber o que fazer para mantermos nossas vidas nas condições de desenvolvimento cognitivo, emocional e espiritual.

          E aqui Pablo Neruda me permite pensar o Poço, em que:
        “Cais, às vezes, afundas em teu fosso de silêncio, 
        em teu abismo de orgulhosa cólera, 
        e mal consegues voltar, 
        trazendo restos do que achaste pelas profunduras da tua existência”...

        E tentando fugir desse poço, das profundezas da solidão e do silêncio, procuramos nos despertar ao amanhecer de cada dia para um exercício composto de uma autodisciplina, renúncia, descobertas de propósitos que podem nos ajudar na melhoria de nossa harmonia pessoal, interpessoal e grupal, a partir dos aspectos psicológicos, tendo como referência nosso corpo, nossa cultura, nossa linguagem na sociedade em que estamos inseridos.

       Nesse sentido, estamos redescobrindo hábitos e valores familiares em nossa vida cotidiana que pareciam distantes, como por exemplo, o sorriso, a presteza, a higienização familiar e habitacional, a valorização da convivência proximal. e essa às vezes dificultada pelo distanciamento que ocorria, mas tudo isso se justifica no presente, visto que nesse momento todos nós necessitamos de ações de preservação da vida e temos consciência que não podemos tocar e nem beijar pessoas que antes tínhamos toda liberdade, estávamos tão perto que pensamos que nunca estariam ausentes ou distantes, tudo mudou muito rapidamente, e uma palavra chamada quarentena, passou a fazer parte de nosso vocabulário natural, ou seja, temos que ficar maior tempo possível em nossas residências.

          Aqui Pablo Neruda, em o Poço, me permite expressar:
        ...“Não acharás, amor, 
        no poço em que cais o que na altura guardo para ti: 
        um ramo de jasmins todo orvalhado, 
        um beijo mais profundo que esse abismo”...

        E pela força da ausência desse beijo, no mais profundo abismo do isolamento social, sentimos a ausência como algo que nos provoca inúmeros sentimentos, e para lidarmos com essa carga afetiva recorremos às fotografias das pessoas que estimamos, sejam familiares, amigos, colegas de trabalho, viagens e que estão armazenados em nossa tecnologia habitual.

      É verdade que planejávamos eventos sociais, novas viagens, e tanto mais, porém, agora não poderemos realizá-los, então nossos sentimentos se deslocam para um horizonte próximo, futuro, onde nos refugiamos e imaginamos que seremos compensados por essa falta da presença no presente...

       Agora, reconstruindo nossas metas pessoais e profissionais, no silêncio subjetivo de nossa alma a cada dia, através de um aprendizado de renúncias, mudança de hábitos e valores, e para isso, precisamos reconhecer o nosso eixo social sem o pleno olhar narcísico do poder, em que tudo para nós seria possível a partir do “foco” no próprio desejo, agora, sabemos que não podemos mais contemplar o reflexo da imagem narcisa, pois, a água do poço de nossa existência social e humanitária não é límpida. Assim, diariamente, produzimos uma ampla discussão do que venha ser a autonomia humana diante de nossa imagem infinitamente menor que as forças do universo.

         Aqui, Pablo Neruda, em O Poço, me permite citar:
          ... “Não me temas, 
          não caias de novo em teu rancor. 
          Sacode a minha palavra que te veio ferir e deixa que ela voe pela janela aberta. 
          Ela voltará a ferir-me sem que tu a dirijas, 
         porque foi carregada com um instante duro e esse instante será desarmado em meu peito”....
        
       Então, passamos a ter consciência que o universo tem inúmeras vidas e que nós somos os cuidadores, pois nossas ações são demandadas a partir de como olhamos aquela situação, mas para isso, se faz necessário termos uma lente de aumento, onde a proximidade da realidade social possa se manifestar, se conhecer, se discutir e se buscar transformar, visto que uma reunião de pessoas pode gerar inúmeros benefícios ou destruições às demais, porém entendemos que o grande reflexo dessa atitude é sabermos lidar com uma sociedade repleta de complexidade pessoais e múltipla em hábitos e valores culturais e que isso significa condições de mutações e adaptações para com todo, onde o tempo é o nosso aliado para o despertar de um novo momento em nossas vidas.

      Um vírus nos faz pensar o quanto nosso poço introspectivo, imagem interna, e extrospectivos, imagem externa, ainda precisamos conhecer, para que possamos melhorar nossas ações relacionais diante das profundezas de nossas atitudes nos cenários múltiplos de nosso ser.

          Pablo Neruda, sugere:
           ..."Dá-me amor, 
         me sorri e me ajuda a ser bom. 
         Não te firas em mim, 
         seria inútil, 
         não me firas a mim porque te feres”...

         Por isso, esse momento é de aprendizagem para todos nós, sem distinção de credo religioso ou ideologia política, visto que posteriormente a toda essa dificuldade humana que o planeta está passando, acreditamos que as relações humanas serão modificadas, retirando dos poços de nossas existências uma maior quantidade de água solidária, com um aroma extremamente agradável de fraternidade humana.

Isso é tudo que precisamos para semearmos e colhermos novos frutos providos da terra mãe, visto que ela se permite fecundar por nossas ações, porém sempre irá nos devolver e responsabilizarmos pela forma como venha a ocorrer a fecundação.
...



Pablo Neruda - O Poço



O Poço


Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.


Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?


Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda



quarta-feira, 1 de abril de 2020

SAÚDE MENTAL: Humanos cuidando da Humanização.



“Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”.

- Sigmund Freud
                          
               Observamos, atualmente, os crescentes números que envolvem Vidas Humanas através da proliferação do Covid-19 e ainda não temos como quantificar o fim dessa história narrada a partir de nossas vivências diárias, visto que, no momento possuímos muitas informações originárias dos noticiários de todas as redes de comunicações existentes no universo, bem como de nossas constantes trocas de mensagens nas diversas redes sociais que optamos por fazer parte. 

                                                      

                Porém, sabemos que o excesso de informações não nos conforta, pelo contrário, tal situação vem ampliando as queixas na área da saúde mental, pois para muitas pessoas, essas notícias, apesar de necessárias, geram o aumento acentuado nos estados de ansiedade, medo, estresse, podendo chegar à fronteira do pânico. Isso altera significativamente as rotinas nas famílias, além de despertar ideias de suicídio, agravamentos depressivos, insônias, pesadelos, bem como o aumento nas situações das clínicas médicas específicas, tais como: gastrites, úlceras, cardiopatias, hipertensão arterial, doenças pulmonares e inúmeras outras patologias de origens psicossomáticas. 

          Por isso tudo, devemos estimular nossa resistência orgânica, praticando exercícios físicos diariamente, atividades criativas como desenhar, pintar, cantar, dançar, escrever, assistir filme e realizar outras coisas mais que apreciamos, para que, assim, não tenhamos uma diminuição da autoestima e do instinto de autopreservação. Precisamos expressar o que sentimos e pensamos, estimulando estados emocionais positivos necessários para acionar nossas forças internas, nesse momento de condições existenciais extremas.

             Portanto, no aqui e agora, penso que todos estão conscientes dos riscos da vida presente em cada um de nós, e isso, por si só, tem nos gerado um estado de responsabilidade humana necessário para nosso equilíbrio mental, interferindo em nossa visão de ser humano e humanização. Em função dessa situação atual, onde a incerteza faz fronteira com a esperança, nada mais será como antes, depois desse mar de aprendizado individual e social, onde os sentimentos expressos ou os silêncios temporais continuam sendo o fator de moradia do Homem e de seu alicerce singular.

Uma possível solução para a falta de água potável no mundo - Eurovip              Nesse momento, o ato de doar cestas básicas, por exemplo, se torna imprescindível para que uma parte de nossa população tenha o mínimo de condições de sobrevivência, pois sabemos que cada vida contaminada significa possibilidade de outras com a mesma patologia e essa disseminação não interessa a ninguém, além da necessidade de água potável para que as famílias possam viver uma prática de higiene, minimamente, proveitosa e responsável. Logo, precisamos de ações e atitudes da sociedade como um todo.

              Agora, a solidariedade, que andava distante no dia-a-dia, retorna ao debate social, dando lugar a uma atitude de cidadania e respeito à vida humana, onde eu, solidário, ajudo e sou ajudado por outras pessoas, visando também a minha autopreservação. Não sei se tenho outra escolha, porém tenho a certeza de que o status social, os títulos, a posse de bens materiais, o egoísmo, a vaidade e o poder ficarão para outro momento existencial. No aqui e agora, eu, singular, percebo minha consciência de ocupar o território social em sua plenitude e, ao mesmo tempo, descubro que minhas atitudes positivas e caridosas demonstram o múltiplo ser de influência otimista na humanidade.

Doar faz bem para todos - Assunto do Mês na IBE           Resta-nos estarmos solidários, esperançosos e otimistas para que possamos impulsionar nossas condições humanas de vida através de ações no cotidiano. Logo, apesar de nossa dificuldade existencial atual, temos, mais do que nunca, a possibilidade de tomar um caminho de higiene mental. Aqui Nietzsche me faz refletir categoricamente que: “O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo”.
    Assim, faço um convite para que abandonemos nossas crises narcisistas e egoístas para que possamos arejar nossos pensamentos, renovando nossos sentimentos, fortalecendo nosso eu interior e assim possamos combater as fobias, ansiedades, depressões, pânicos, medos e outros transtornos mentais. Precisamos ter consciência que somos capazes de reparar nossos erros, mergulhar no autoconhecimento e reencontrar nossas virtudes, qualidades e características pessoais, além de analisarmos nossas dificuldades em compreender e tolerar outras pessoas com quem temos rejeição ou, até mesmo, dificuldades de convivência. Elas fazem parte do grande aprendizado chamado vida humana.
         Pense e analise! As paixões que nos abraçam, estão no entrelaço de nossos braços, presentes nas memórias de nossa alma e jamais serão separadas de nós...

        Para esse momento singular e difícil, solicito que você não se abandone na tormenta no aqui e agora, mas se abrace, sorria para você, pois você merece seu perdão, sua ternura e seu amor...

                    Vamos, temos muito que aprender e melhorar nossa forma de viver!

                                         Todos nós, contamos com VOCÊ!

sábado, 21 de março de 2020

Pandemia do Coronavírus (Covid-19) e o Ser Social


          Vivemos uma pandemia que nos faz pensar nossas atitudes de Ser Social. Nossa sociedade que se propôs a ver a felicidade pela paisagem que no horizonte cultuava o consumo da extrema luxúria. Todos nós queríamos cada vez mais e por isso achamos “natural” acelerarmos o consumo como forma de bem-estar, criamos créditos para promover endividamentos econômicos coletivos, visto que poderíamos comprar um automóvel em cinco anos de cooperação mensal ao banco financiador.

                                         

          E assim, de forma voluntária ou involuntária passamos a assistir a destruição do meio ambiente e colocando em evidência uma certa concordância mundial, então aceleramos as queimadas, poluímos os mares desprezando os recifes oceânicos, tudo se tornou descartável, até os relacionamentos humanos passaram a ser um quem sabe, talvez, até amanhã, ficou não ficou, até mais logo, ainda estou, não sei até quando, etc...

       Com o advento do Coronavírus (Covid-19), voltamos para o Hic et nunc uma expressão latina que significa literalmente "aqui e agora". Porém vivemos essa filosofia sem o imediatismo idealista e singular, visto que estamos mais conscientes de que cada atitude nossa será decisiva para o momento seguinte de nossa família e sociedade no viver do aqui e agora.

           Percebemos que estamos preocupados com nossos próximos segundos, minutos e horas, mas devemos entender que atacar instituições democráticas ou agredir quem possamos imaginar como culpados, não irá mudar em nada a realidade que temos que viver e enfrentar com serenidade e responsabilidade de todos. Logo, devemos seguir sem extremos alarmes, pois honestamente, nenhum de nós sabe nada sobre tudo que ainda haveremos de passar. Criar um quadro negativista e aterrorizante diante desse desafio em nossa sociedade, deverá contribuir apenas para gerar inúmeras faces de desesperos, podendo causar um amplo desequilíbrio psíquico em inúmeras FAMÍLIAS, o que agravará ainda mais as demandas de atendimento das equipes de saúde plantonista em nosso país e no mundo.
     Nesse momento, é necessário buscarmos a ternura de nossos filhos e familiares presentes ou distantes para que possamos refletir como a vida é bela e cheia de situações positivas.
Sugiro que você possa fazer o exercício de fechar os olhos agora, mergulhar e encontrar no íntimo de sua alma e consciência, os filmes de alegrias e dificuldades que você já enfrentou para chegar até essa presente data.

          Hoje estamos no aqui e agora para ampliarmos nossa percepção do quanto ainda somos aprendizes de um mundo em constante mutação, e que o fato de eu e você estarmos na fronteira de nossas vidas, isso não me impossibilita ser feliz, visto que o otimismo deve ampliar nossa percepção do mundo no qual fazemos literalmente parte da construção do todo, e assim não podemos esquecer que nossos valores são os estandartes que nos  permitem produzir e viver nossos relacionamentos afetivos, visto que o afeto é o grande impulsionador de nossas vidas diárias, motor da vida, sendo sua principal inspiração para o tão buscado equilíbrio bio-psico-social-espiritual do Homem como um todo.

         Nossa esperança nesse momento deve se voltar para o amparo do colo Divino, e que tenhamos com sua benção o mais rápido retorno de nossa saúde coletiva, assim sendo, possamos posteriormente estar narrando uma história repleta de superações, onde os obstáculos foram expurgados pela força de nossa fé, através de lágrimas, ternuras, responsabilidade e sensibilidade para com o próximo, e que nossas futuras fotografias não revelem apenas o apego vazio da luxúria do comprar como ostentação social, mas que nos permitam revelar aos demais membros de nossas famílias a importância de viver em sociedade e o quanto aprendemos como essencial olharmos pessoas sorrindo sem o receio de demonstrar os motivos das suas felicidades.

                                   

           Nossas famílias são nossos alicerces afetivos, por isso vamos prosseguir caminhando com solidariedade ao próximo, respeito a toda forma de vida e, principalmente, valorização das pessoas que realmente fazem parte de nossa existência.

Amém....